
É fato. Meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso/ Jornalismo 2009) me consome!!!
Mais eu estou adorando toda a correria, o tempo curto, e as poucas horas de sono. "A voz da periferia: a vida como ela é"... Esse é o nome daquele que julgo ser um dos melhores trabalhos que já fiz durante todo o curso de Jornalismo.
Há um tempo atrás, escrevi aqui sobre as pessoas que conheci na minha caminhada, e hoje, venho escrever sobre uma senhora que conheci nas entrevistas que estou fazendo pelas periferias de São Paulo.
Dona Cleide, 72 primaveras, moradora da Zona Leste, guerreira. Durante 25 anos, dona Cleide trabalhou na FEBEM (atual Fundação CASA), e me contou histórias arrepiantes e emocionantes.
"Olha só menina, se eu for te contar todas as histórias daquele lugar ... Hum... vamos ficar todo o mês aqui e não vai dar tempo viu!", disse sorrindo.
E começa o seu relato...
"Certo dia chegou na FEBEM, um menor sangue no 'zóio'... Estuprador sabe? Daqueles 'maluco' que acha que ta abafando... Queria tudo a mais que os outros. Um dia me gritou: "Ei Tia... você que controla a 'chepa' aqui nesse chiqueiro? - Respondi que não e fiquei quieta para não causar atritos com ele... O 'inseto'(risos) não parava... "E ae 'negona', responde- Eu não respondia nada... Mas ele me irritou tanto que acabei soltando: Ei seu muleque, você acha que tá falando com quem hein mano? O 'baguio' aqui é louco maluco... Quer vir pra cima da 'negona' vem, só não vem com cagueta que aí a 'chapa esquenta'... Ele me olhou torto e falou apenas assim óh: "Aí a tia 'véi', só na maladragem irmão"... E realmente, tinha que ser chapa quente ou então, aqueles muleques te perseguiam, ameaçavam e 'tiravam' com a sua cara... Passei 25 anos da minha vida cuidando de todo o tipo de vagabundo... Assassino, estuprador, menino de 17 anos com mais de 10 homicídios, menina que matou toda a família, assassina mesmo sabe?... Gente de diversas periferias de São Paulo - Ermelino Matarazzo, Carapicuíba, JD. Angêla, Guarulhos... Uma galerinha 'barra pesada' (risos)... Mais quando a pessoa tem que ser ela já nasce... A favela é sim um reduto do crime, mas é também de gente batalhadora, gente que sofre pra colocar o pão na mesa, 'saca'?
Eu, por exemplo. Batalho... Meus filhos foram todos criados na periferia, Zona Leste, o lugar onde ou o fulano é ou não é (risos)... Mais é o seguinte, eu prefiro passar na roda dos 'mano' do que na roda dos 'canas', porque com o maluco eu sei chegar, trocar uma idéia e 'pá'... Já os canas! (Hum)... Não dá pra trocar idéia não! Na certa vão me olhar e falar: Ah 'negona', malandrona, segura o BO que ele é seu! - Tô fora! (risos)... Quanto aos governantes... Vamos olhar mais pro jovem da periferia... para o povo batalhador da periferia... Gente que 'rala', que sofre... Eu tenho muito orgulho de morar numa periferia, muito mesmo... O ruim é que os 'maluco' faz os 'baguio' deles longe e corre pra quebrada né, aí já viu! Você tá na sua casa e os 'bruxo' cerca tudo... Quando você olha pro céu... é bala pra todo lado... Fora isso, a periferia é uma família... Todo mundo se conhece, se gosta... Os 'mano' respeita mesmo o cara que batalha na humildade...
Governantes: 'vamo acorda'... É como diz aquela música: nem sempre a maldade humana está em quem porta o fuzil...Tem gente de terno e gravata matando o Brasil..."
Abriu um lindo sorriso negro em minha direção e falou: "muito sucesso minha querida, porque eu sin to que você merece"...
Mulher guerreira, uma das melhores entrevistas que já fiz... São essas pessoas, gente humilde da periferia, que me incentivam a finalizar esse trabalho com muito amor e dedicação... São pessoas como dona Cleide que fazem o Brasil... Gente da gente.
(Por Yara Morais)




