quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tropicalia in Furs: um canto da zona leste de São Paulo em NY


Abacaxis, laranjas, bananas e muito verde e amarelo por trás da loja de vinis mais procurada de Nova York

POR YARA MORAIS

Faz sol em Nova York. O relógio central na Times Square marca 33°C. Mas não é na famosa e elegante avenida nova-iorquina que está o destino dessa reportagem.

Rua 5, bairro East Village, no coração de Manhatan. Ali é possível ouvir sons de Tim Maia, Gilberto Gil, Jorge Ben e Caetano Veloso. A loja, com paredes coloridas forradas de discos de vinil, é a popular Tropicalia in Furs, que abriga a maior coleção de discos da Tropicália existente no mundo, e que já recebeu ilustres presenças do hip-hop mundial, como Egon, Edan e Mike D (Beastie Boys), entre tantos outros. Com preços que vão de US$ 3 a US$ 6.000, fazem daquele canto brasileiro em Nova York um fascínio para DJs, produtores e todos aqueles que gostam de música popular brasileira.

A loja é um projeto do brasileiro Joel Oliveira (ou Joel Stones), DJ e apresentador de programa de rádio. Começou sua trajetória nos EUA como engraxate e, devido à sua simpatia, ganhava convites para jantar. Começou a discotecar nas horas vagas e, com o dinheiro que ganhava, comprava discos brasileiros e os revendia. Em dado momento, alugou um porão escuro no sebo Norman’s Sound & Vision e deu-lhe cara nova (“cara de Brasil”, como ele mesmo define). Saiu comprando todos os discos brasileiros que encontrava pela frente. Durante algum tempo, conciliou a loja com a graxa e os sapatos. Mas o trabalho com os discos cresceu e exigiu dedicação integral do brasileiro, que deu "adeus" à vida de engraxate.

Joel conta a quem quiser ouvir que, no início, pouquíssimas pessoas o conheciam. Até que foi descoberto por “gente da música”, pessoas que hoje mantêm contato com ele para saber sobre vinis raros. Ele, como bom brasileiro, paulistano da zona leste, até mente quando não tem o álbum buscado, só para o cliente conferir pessoalmente.

O dono da Tropicalia in Furs já foi até personagem de um documentário, numa cena em que vendia uma cópia rara de vinil do Os Mutantes. Outra de suas “artes” é a junção Brazilian Guitar Fuzz Bananas: Tropicalista Psychedelic Masterpieces, 1967-1976, com 16 faixas acompanhadas de encarte, além de um DVD que retrata encontros do brasileiro com Egon, Marisa Elijah Wood – protagonista de Senhor dos Anéis. Mas na verdade, o que chama mais a atenção de quem passa pela loja é a simpatia daquele canto brasileiro nas artérias de Nova York.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Lembranças de Auschwitz



As tristezas do campo de concentração onde mais morreram judeus na época Hitler contadas por um sobrevivente

Por Yara Morais

“Preconceito existe em todo e qualquer lugar do mundo, mas aquele preconceito era diferente. Era uma guerra sanguinária.”

Alemanha, abril de 2010. Mês em que a Europa fora invadida pela nuvem de fumaça que se alastrou por todo o continente. No Brasil, as pessoas estavam ansiosas para a convocação da seleção de Dunga para a Copa da África do Sul. Enquanto meu país priorizava o futebol, resolvi me aprofundar na Alemanha do início da década de 40. Década marcada por Adolph Hitler. É difícil caminhar pelas ruas e não se lembrar dos dias que retrataram aquele período. Berlim está diferente, é visível a melhoria da cidade depois da derrubada do muro que separava as duas Alemanhas. Mas meu destino era outro. Bremen, uma pacata cidadezinha no noroeste do país. Chegando à cidade, sento-me na calçada com alguns jovens que cantam ao som de Beatles. Puxo conversa. Futebol, samba, é uma grande novidade para eles. “Vocês vivem na praia todos os dias,” comenta uma moça de aparente 25 anos de idade. E completa: “meu avô sempre quis ir ao Brasil para lá, mas não conseguiu. A época dele não permitia a liberdade que temos hoje.” Explico a moça, a minha função no Brasil. Uma longa conversa e ela me convida para conhecer o sítio onde mora com a família. Ao chegarmos, observo um senhor na varanda. Pele branca, olhos claros, típico europeu. Na sala da casa as janelas dão de frente para a plantação de rosas vermelhas. Catharine me apresenta ao avô que, quando sabe sobre minha nacionalidade solta: “o Brasil parece coisa de cinema, aliás, a guerra lá é pela bola.”

Com um sorriso que carrega a marca de 90 anos de idade, Andreas Marcinkowski, possui no rosto as marcas de quem viveu momentos de horror sob o poder de Adolph Hitler. Iniciamos uma conversa descontraída, até que pergunto se ele passou por algum campo de concentração naquela época. Sem hesitar ele responde: “meus pais eram judeus. Morreram em Auschwitz. É impossível tirar aquilo da minha história.”

Por diversos momentos eu sentia que aquele homem tinha muito para contar. E eu estava certa. Polonês por naturalidade, ele vivia com os pais e irmãos quando todos foram capturados por soldados de Heinrich Himmler. “Éramos judeus, aquilo era inadmissível para eles. Os soldados diziam que fazíamos mal para a espécie humana.”

Andreas se emociona ao falar da chegada no campo de concentração: “Separavam a gente. Velhos e crianças de um lado, jovens do outro. Os jovens eram recrutados para o trabalho. Aquele lugar era horrível. Tudo era cinza.”

Entre um comentário e outro ele ri, conversa com os netos, faz questão de mostrar o sitio em que mora. Faz bem o tipo avô, mas faz muito mais o estilo sobrevivente. Aponta para o norte. “Eles iam para a Polônia em bando”, relembra, referindo-se aos soldados. “Davam-nos roupas com números, e aparavam os cabelos das pessoas. Depois daquele dia nunca mais vi meus pais vivos. Somente gritos pela noite, e eu pensava que um daqueles gemidos podia ser de um deles.” As lágrimas correm pelos olhos. Seria inevitável, afinal, tudo aquilo fez parte de sua vida. Mal me deixa perguntar e já dispara: “eu não sei ao certo quantas pessoas morreram lá. Mais milhões de judeus perderam suas vidas por causa de um preconceito. Lembro-me de muitas vezes que eu trabalhei na casa de comandantes. Carregava entulho, terra, e se derramasse um punhado que fosse, apanhava até desmaiar. Às vezes eu não dormia. Tinha medo de acordar no banho da morte [referindo-se aos banhos de ácido].”

Neste momento ele pára a conversa e vagarosamente continua a caminhar. Volta-se para mim e, surpreendentemente diz: “tive que colocar o corpo da minha mãe para ser queimado.” Ao se deparar com o meu semblante de espanto, completa: “eu ajudava na fornaria. Queimava muitos corpos, queimava minha gente sem poder derramar uma lágrima.” Por um momento as imagens tomam conta da minha memória. Pergunto sobre sua mãe. “Ela era linda, por isso eu a reconheci. Quando olhei para ela deitada, morta, com hematomas por todo o corpo, tive vontade de abraçá-la e morrer junto com ela. Mas não pude. Tive que me fazer de indiferente. Colocar o corpo lá como se fosse de um desconhecido.”

Fiquei sem reação. Ele limpa o rosto e volta a caminhar. Aquela era, com certeza, uma das mais impressionantes histórias de vida que havia escutado. Marcinkowski lembra perfeitamente do dia em que fugiu do campo de concentração. “Eu e outro rapaz aproveitamos um deslize dos soldados e escapamos. Aguardávamos aquele deslize há meses. Eu nem acreditei quando sai de lá. Durante muito tempo ficamos escondidos no meio da mata, como bichos.”

O amigo, Samuel, que fugiu com Andreas, morreu em 1993, com problemas cardiológicos, conta. Depois da fuga, Andreas não viu mais os irmãos. Ele acredita que por serem crianças levaram o mesmo fim dos pais. Em maio de 1946 ele se casou com uma jovem alemã, com quem teve dois filhos. Hoje, ele guarda tristezas e alguns momentos tranquilos daquela época, como as partidas descontraídas de futebol, mas, guarda principalmente o mais triste deles: o instante em que teve que queimar o corpo da mãe.
Já era tarde, eu precisava voltar para o hotel antes de partir para Berlim. Despeço-me dele e dos netos. Agradeço pela conversa. Ele, então, sorri e finaliza: “aquela Alemanha do Hitler morreu, por isso vim para cá. Mas os judeus, sejam eles alemães, poloneses ou belgas, por mais que tenham sofrido sobreviveram. Eu não sei quantos anos mais vou viver. Mas só por ser um sobrevivente já valeu a pena ter passado pela vida.”

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Encontre o Ian


Amigos, colegas jornalistas e todas as pessoas que puderem ajudar, atenção!
O sobrinho da MC Dedeus, foi sequestrado!
Ele foi para Florianópolis dia 20 de Julho com a mãe. Deveria voltar dia 04 de agosto mas não retornou. O celular, tanto da mãe quanto do padrasto não atendem, se quer dão sinal. Toda a polícia de Florianópolis e a Polícia Federal estão à procura.
Gostaria de pedir, encarecidamente, que nós, da imprensa, e principalmente meus amigos da imprensa catarinense, fizessemos a nossa parte!
Sabemos que centenas de crianças desaparecem por ano no Brasil. Vamos mudar isso!

Ajude-nos a encontrar o Ian.
Qualquer informação entre em contato:
(011)6335-9195 OU LIGAR PARA O DELEGADO Dr.Pedro no telefone (048) 3271-6226/3271-6200.

A família agradece!

Abraços
Yara Morais

sábado, 29 de maio de 2010

João Wainer: Minha Lente, meu olhar


De Lula a Mano Brown: A luta periférica através das lentes de João Wainer

“A periferia me escolheu antes mesmo que eu escolhesse ser fotógrafo.” Era junho do ano de 2009, mês que antecedia a finalização do meu vídeo documentário: A voz da periferia, a vida como ela é. Uma enorme lista de nomes, de simples moradores da periferia a famosos rappers, eram alvo das minhas entrevistas. Mas, um nome em especial liderava essa lista, não só pelo fato do trabalho reconhecido, mas por conhecer de perto o cotidiano das periferias de São Paulo. Devido ao cansaço das correrias, adormeci, sem saber o que estaria por vir. Desperto do sono com o barulho do celular, na tela a surpresa: João Wainer. Retorno a ligação e para meu azar o número não atende. Aguardo alguns instantes e o celular volta a chamar. Iniciamos uma conversa seguida de um convite: acompanhar João Wainer e equipe até a Copa da Paz, torneio de futebol realizado em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo.

Já em Paraisópolis e, acompanhando a equipe, passo a vivenciar a realidade de uma das maiores comunidades do país. Mas aquele dia seria mais do que isso. João Wainer e seu irmão, Roberto T. de Oliveira são reconhecidos e respeitados em cada canto que passavam, mas era um reconhecimento diferente, era um respeito de “mano pra mano.” A partida de futebol estava emocionante. A final entre Vida Loka e Bate Fácil animava a torcida, a mim, e, principalmente as lentes da câmera de João Wainer. No entanto um anúncio mudaria o destino daquela noite. Vida Loka consagra-se campeão. Para entregar o troféu é anunciado, inesperadamente, Pedro Paulo Soares Pereira, ou melhor, Mano Brown, um dos maiores líderes negros deste país. Corro para o meio do campo para ajudar com os equipamentos, e, então vejo Brown, num estilo periferia, cumprimentar João e Roberto. Sem hesitar, Roberto me apresenta a Brown, trocamos algumas palavras, e, como ele mesmo rima em um de seus versos mais conhecidos: “eu tenho uma missão e não vou parar, meu estilo é pesado e faz tremer o chão.” Naquele momento eu me sentia assim, porta voz, guerreira, suburbana convicta. Percebi que não só eu mas, João Wainer, apesar de não demonstrar, se emocionava a cada coisa que tinha a oportunidade de fotografar.

João Wainer, sem dúvida, carrega no sangue o DNA do seu avô, Samuel Wainer. Neste dia conversamos sobre muitas coisas em prol da periferia, no que pode mudar, e no que já está mudando. Em outra oportunidade tivemos uma conversa extensa, falamos sobre Rap, periferia, juventude. João explicava o porquê escolheu a periferia, ou melhor, como ele mesmo diz, a periferia o escolheu: ”a periferia me chamou a atenção por ser uma realidade diferente da minha. Eu queria andar livre pela minha cidade, com a janela do carro aberta, sem medo algum.”

Levo a idéia mais adiante, pergunto sobre a vida profissional, as fotografias. Ele sorri e responde: “já fotografei do Lula ao cemitério São Luiz, e é uma coisa muito louca de se ver. Por exemplo, a primeira vez que eu fui ao São Luiz, eu sentei na calçada e fiquei observando atento tudo aquilo. Ver as mães que iam visitar os filhos mortos é meio que a inversão da ordem natural das coisas, e aquilo mexeu muito comigo.”

Wainer abaixa a cabeça e pensa. Sorri, oferece um refrigerante. Pergunto quem ele considera o maior ídolo das periferias. Ele, responde: “existem grupos de Rap muito bons como Relatos da Invasão, Função RHK, muita rapaziada qualificada. Mas, ídolo, sem dúvida alguma, é o Brown, ele é o grande ídolo das periferias, ele é o cara”, conclui.

E é esse mesmo Mano Brown – e não só ele como os seus companheiros de Racionais MCs, que foram clicados inúmeras vezes por João Wainer. Mas, não só o grupo teve sua imagem imortalizada pelas lentes do fotógrafo. Dexter, Jair Oliveira, Elza Soares, Max de Castro, Chico Buarque e o já citado Presidente Lula, também já foram clicados por ele.

O tema se estende, e, João mostra que suas lentes conectam muito mais que imagens, conectam almas. “Chegar na periferia e ver que aquela gente é feliz apesar dos problemas, é gratificante. É muito louco aquilo, a galera no churrascão na laje, som do carro ligado no talo, saca? É mó barato.”

O fotógrafo que já percorreu periferias de vários lugares do mundo, como a de Kingston, diz que fotografar a periferia tem um algo especial, que não daria para explicar em algumas palavras. No entanto, o homem dos retratos sensacionais, do incrível “Pixo” (assista ao trailer), e dos cliques de Carandiru e de muitas coisas que o Brasil finge desconhecer, cita em uma frase de Tia Dag, uma realidade vista por suas lentes, que são, na verdade, seu olhar: “o moleque da periferia é bem mais forte do que o moleque da classe média, porque se ele conseguiu sobreviver até os 15 ou 18 anos passando por tanto perrengue, ele pode passar por muito mais coisas que sobreviverá.” E completa: “ninguém segura a periferia. Eles tem um estilo próprio, eles crescem a cada dia. Essa galera vai longe.”

Nesse momento, o som “Povo da Periferia”, de Ndee Naldinho, passa pela minha mente. João continua, explica e acrescenta detalhes. Mostra que suas lentes são capazes de retratar muito mais do que imagens. Mostra que a luta da periferia vai de Lula a Mano Brown, de Che Guevara a Martin Luther King, mas sem perder a riqueza de cultura e, o principal, sem perder a alegria. E finaliza: “há 15, 16 anos eu escutei Racionais pela primeira vez e fiquei louco! A maneira com que o Brown falava como ele descrevia as coisas, aquilo chamou muito a minha atenção. Como eles [Racionais] mesmo dizem, periferia é periferia. E o guerreiro de fé, o pai de família, o trabalhador – esse nunca gela, não agrada o injusto e não amarela."

Essa matéria, foi publicada em primeira mão no site do Central Hip Hop... Lá tem fotos e td mais... Confiram!

(Por Yara Morais)

sábado, 3 de abril de 2010

A "Dita"...


Um dia desses me peguei conversando com um senhor, médico por profissão, e gestos que me chamaram bastante a atenção!
A forma de andar, como se estivesse olhando prisioneiros dentro de uma cela,não era um andar comum.
Pedi pra que ele me falasse sobre o número de seu CRM (Conselho Regional de Medicina), e descobri através daquele número, doze mil ponto alguma coisa, que por trás daquele jaleco branco, de um diretor de hospital "frágil", e de uma simples entrevista, saíriam histórias que jamais pensei que fosse descobrir. O foco da entrevista mudou, e mudou desde o momento em que aquele simples médico me contou que fora, na época da ditadura, Médico assistente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) criado durante o Estado Novo, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. DR. Luiz, me contou então, como conheceu nessa mesma época, a candidata à presidência Dilma Rousseff.



Publicarei essa entrevista dentro de alguns dias!


(Por Yara Morais)

terça-feira, 23 de março de 2010

Delegada diz ao juri que tem certeza da culpa dos Nardoni


Ocorreu hoje o segundo dia de depoimento do julgamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, supostamente assassinos de Isabella Nardoni em março de 2008.
Ouvida por toda a manhã, a delegada Renata Pontes, que acompanha o caso desde o início, disse ter certeza de que o homicídio foi cometido pelo casal Nardoni. "A cada dia da investigação, tinhamos plena certeza de que o crime foi de autoria do casal", afirmou.
Ao ser questionada pelo advogado de defesa, Roberto Podval,sobre em quais locais do apartamento haviam vestígios de sangue, a delegada respondeu que somente a perícia estaria qualificada para responder esse tipo de questionamento. Logo após, Podval, perguntou se as roupas de Alexandre Nardoni possuiam sangue, Renata Pontes, então, respondeu:"Sim, na bermuda dele havia sangue, mas não era da menina Isabella".
O julgamento continua pelo menos até a sexta-feira próxima. O casal Nardoni ainda não prestou depoimento.


Por Yara Morais (Direto do Forum de Santana na Zona Norte de São Paulo)

sábado, 6 de março de 2010

Oitavo Anjo



Precisava postar aqui, algumas fotos feitas pelo fotógrafo João Wainer, que trouxe de volta a face de Dexter, um dos rappers que mais engrandecem o cenário do Rap Nacional.
O Oitavo Anjo.

"Bem ou mal, coisa e tal, sobrevivi
Como Fênix renasci
Sou guerreiro de fé e por Deus abençoado"...

(Letra de Fênix / Dexter)

Fotos: João Wainer

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Um Lugar Chamado PERIFERIA... (Na voz de seu filho Hood)

Sabe um lugar, aquele lugar que você sabe onde é
Aquele lugar que só sobrevive quem é,
aquele lugar que o homem se mantém de pé?

Sabe aquele lugar de um brilho incomparável,
de alegria incontestável...
Que canta um RAP du bom,
Um som alto astral...
Um lugar de brilho que vc nunca viu igual...

Aquele lugar que impôs suas vozes
Aquele lugar de homens 'ferozes'...
Aquele lugar que inova no samba...
Celeiro de bamba...
Fez na avenida do samba,
um Rappin de nome Hood rimar...

Ah aquele lugar...
Aquela imensidão...
A chamada periferia...
que rima Paz, Amor e alegria!!!


(Yara Morais)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na Barriga da Besta ... Por Yara Morais

Um relato cru e frio da rotina de crimes, vingança e crueldade de uma das áreas mais perigosas e pobres da zona sul de São Paulo

"Menina, você não é daqui, não!" a voz vem de um rapaz alto, de olhos verdes e cabelos negros, que bebe cerveja diante do balcão de um boteco nada convidativo. Me encarando, ele diz para o amigo ao seu lado: "Aí, meu velho, não tô falando que os playba agora tão subindo o morro!? Tá fazendo o que aqui, menina?"

Sem água potável em meu barraco, eu estava ali apenas com o objetivo de comprar um refrigerante para matar a sede. Mas respondi a verdade, detalhadamente: contei que era uma estudante de jornalismo, que há quatro dias alugara um barraco durante um mês para morar naquela região porque esse era o único jeito de eu fazer meu trabalho de conclusão de curso cujo tema era "periferia". Contei que a Zona Sul de São Paulo foi o primeiro lugar que me veio à cabeça, que sem conhecer ninguém peguei a mochila e fui para o Capão Redondo, onde andei horas por Jardim Ibirapuera, Jardim São Bento, Parque Santo Antônio, e que, finalmente, decidi ficar ali, no Morro do Piolho. Que foi Dona Bete, uma moradora local, mãe de dez filhos - nove deles presos -, quem me ajudou a encontrar um barraco para alugar por apenas R$ 65 mensais.

Mas não contei que eu tinha a nítida sensação de que tudo na minha vida mudaria depois dessa experiência. Nem que minha mãe dizia: "Você é mesmo doida", ou que parti para a Zona Sul levando uma TV de 14 polegadas, um colchonete e uma mochila nas costas com dois pares de tênis, jeans, blusas, um velho skate, R$ 80, um cartão telefônico e um bilhete único, sem saber que lá eu viveria situações que nem o mais experiente dos repórteres policiais jamais presenciou ou sobreviveu para contar.

Também não contei do medo quase palpável que me acometeu no dia em que cheguei ao Morro do Piolho e ouvi, na primeira esquina que virei: "Vacilou é assim memo (sic), os maluco degola! (sic)". Guardei para mim aquela primeira tarde em meu novo lar, quando entrei no barraco, joguei as coisas ali no chão mesmo, abri o colchonete e caí no sono, para acordar por volta das 11 da noite, tomar coragem, abrir a porta e me deparar, lá de cima, com uma das imagens mais incríveis que eu já vira: até onde a vista alcançava, as luzes de milhares de casas e barracos pareciam formar uma constelação.

O rapaz no bar, então, baixou a guarda, deu um último gole na cerveja e se apresentou. Seu nome era Leo e se definia como "o braço direito do sistema", o homem de confiança de quem comanda as operações no Morro do Piolho - este controlado pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. O que Leo não havia dito é que "o sistema" era, na verdade, seu irmão mais velho, Gabriel, com quem eu já havia cruzado pelo morro sem saber quem era.

Leo fez questão de me explicar o que todos os moradores já haviam me dito previamente: na favela, ninguém vê nada, ninguém fala nada. Essa era a lei. Na despedida, após quase duas horas de conversa, ele fixou os olhos nos meus e me deu um forte aperto de mão, transmitindo a certeza de suas palavras e o peso das consequências se eu não as aceitasse como regra.

Naquele dia, o céu estava azul como eu nunca havia visto antes. Embaixo do sol radiante, moleques só de bermuda e chinelo corriam, soltavam pipas, rodopiavam os peões, disputavam bolinhas de gude. As crianças brincando e eu reparando cada sorriso, cada gesto, como se fossem únicos. Aquilo, sim, era infância. Aquilo, sim, era brincadeira de verdade - sem videogames, MP3, internet ou celulares. Sentei na calçada, ali no terrão mesmo, e me senti criança outra vez. Acabei-me de tanto correr, rir, e até soltar pipa como um menino. Aquelas pequenas pessoas me mostravam que, se a felicidade mora em algum lugar neste mundo, deve ser naquele exato lugar onde eu me encontrava.

A tarde chegou e subi para tomar banho. Haveria uma festa naquela noite e eu fora convidada. Era aniversário de um dos netos de Dona Bete, e seria na casa daquela senhora humilde que me acolheu como se eu fosse parte da sua família. No banheiro improvisado do barraco, enquanto me lavava com a água fria tirada de um balde com a ajuda de uma caneca, dava para escutar de longe: "Na minha casa todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe, todo mundo samba". Na festa, as pessoas dançavam, conversavam e se divertiam, alheias ao submundo com que convivem lado a lado. A comida era ótima. Sentia a alegria emanar de cada um dos presentes e se espalhar por todos os cantos. Aquela era a melhor festa da minha vida.

Na manhã seguinte, fui comprar pão e, ao olhar para as pessoas, tive a sensação de conhecê-las, de que de alguma forma eu já fazia parte delas e elas de mim. Eu me sentia leve, mas não podia esquecer a minha missão naquele lugar. Nem se quisesse. Foi na noite desse mesmo dia que vi a morte de perto. Bateram na minha porta. Era Leo. Ele falava rápido, as mãos gesticulando no ar, os olhos cheios de ódio e desejo de vingança. "O Gabriel mandou te chamar! Não quer registrar tudo, jornalista? A hora é agora!" Peguei a mochila e os equipamentos - uma câmera e um gravador digitais - e o segui sem saber o que me aguardava.

Os caras do "bang", o pessoal que controla o tráfico de drogas no Morro do Piolho, iriam cobrar uma dívida de R$ 15 mil e, já que o devedor não tinha como pagar com dinheiro, pagaria com a vida. Menos de dez minutos de caminhada depois, chegamos a uma casa de alvenaria na entrada de uma favela vizinha.

Um grupo de cinco homens comandados por Gabriel arrombou a porta e pegou um homem com menos de 30 anos que estava dormindo. Vendaram-lhe os olhos e, deixando-o somente com uma cueca branca, rasgavam-lhe a carne sem pressa, primeiro com um canivete, depois com uma enorme e afiada faca, como as que são usadas nos açougues. Reluzente a lâmina deslizava pelo corpo com a paciência impiedosa da morte, abrindo-lhe a pele. Os olhos de Gabriel apenas observavam, frios, enquanto as mãos de seus soldados faziam um macabro traçado com a ponta do objeto. Cada um cortava um pouco, em um ritual bizarro de vingança. Os cortes eram pequenos, no entanto, profundos e em grande quantidade. O sangue jorrava.

Você lê esta matéria na íntegra na Revista Rolling Stone Brasil edição 40, janeiro/2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Novas postagens

Olá...
Há algum tempo não tenho postado aqui...
Masss... venho lhes dizer que a partir da semana que vem vocês verão
várias novidades...




(Yara Morais)