sábado, 29 de maio de 2010

João Wainer: Minha Lente, meu olhar


De Lula a Mano Brown: A luta periférica através das lentes de João Wainer

“A periferia me escolheu antes mesmo que eu escolhesse ser fotógrafo.” Era junho do ano de 2009, mês que antecedia a finalização do meu vídeo documentário: A voz da periferia, a vida como ela é. Uma enorme lista de nomes, de simples moradores da periferia a famosos rappers, eram alvo das minhas entrevistas. Mas, um nome em especial liderava essa lista, não só pelo fato do trabalho reconhecido, mas por conhecer de perto o cotidiano das periferias de São Paulo. Devido ao cansaço das correrias, adormeci, sem saber o que estaria por vir. Desperto do sono com o barulho do celular, na tela a surpresa: João Wainer. Retorno a ligação e para meu azar o número não atende. Aguardo alguns instantes e o celular volta a chamar. Iniciamos uma conversa seguida de um convite: acompanhar João Wainer e equipe até a Copa da Paz, torneio de futebol realizado em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo.

Já em Paraisópolis e, acompanhando a equipe, passo a vivenciar a realidade de uma das maiores comunidades do país. Mas aquele dia seria mais do que isso. João Wainer e seu irmão, Roberto T. de Oliveira são reconhecidos e respeitados em cada canto que passavam, mas era um reconhecimento diferente, era um respeito de “mano pra mano.” A partida de futebol estava emocionante. A final entre Vida Loka e Bate Fácil animava a torcida, a mim, e, principalmente as lentes da câmera de João Wainer. No entanto um anúncio mudaria o destino daquela noite. Vida Loka consagra-se campeão. Para entregar o troféu é anunciado, inesperadamente, Pedro Paulo Soares Pereira, ou melhor, Mano Brown, um dos maiores líderes negros deste país. Corro para o meio do campo para ajudar com os equipamentos, e, então vejo Brown, num estilo periferia, cumprimentar João e Roberto. Sem hesitar, Roberto me apresenta a Brown, trocamos algumas palavras, e, como ele mesmo rima em um de seus versos mais conhecidos: “eu tenho uma missão e não vou parar, meu estilo é pesado e faz tremer o chão.” Naquele momento eu me sentia assim, porta voz, guerreira, suburbana convicta. Percebi que não só eu mas, João Wainer, apesar de não demonstrar, se emocionava a cada coisa que tinha a oportunidade de fotografar.

João Wainer, sem dúvida, carrega no sangue o DNA do seu avô, Samuel Wainer. Neste dia conversamos sobre muitas coisas em prol da periferia, no que pode mudar, e no que já está mudando. Em outra oportunidade tivemos uma conversa extensa, falamos sobre Rap, periferia, juventude. João explicava o porquê escolheu a periferia, ou melhor, como ele mesmo diz, a periferia o escolheu: ”a periferia me chamou a atenção por ser uma realidade diferente da minha. Eu queria andar livre pela minha cidade, com a janela do carro aberta, sem medo algum.”

Levo a idéia mais adiante, pergunto sobre a vida profissional, as fotografias. Ele sorri e responde: “já fotografei do Lula ao cemitério São Luiz, e é uma coisa muito louca de se ver. Por exemplo, a primeira vez que eu fui ao São Luiz, eu sentei na calçada e fiquei observando atento tudo aquilo. Ver as mães que iam visitar os filhos mortos é meio que a inversão da ordem natural das coisas, e aquilo mexeu muito comigo.”

Wainer abaixa a cabeça e pensa. Sorri, oferece um refrigerante. Pergunto quem ele considera o maior ídolo das periferias. Ele, responde: “existem grupos de Rap muito bons como Relatos da Invasão, Função RHK, muita rapaziada qualificada. Mas, ídolo, sem dúvida alguma, é o Brown, ele é o grande ídolo das periferias, ele é o cara”, conclui.

E é esse mesmo Mano Brown – e não só ele como os seus companheiros de Racionais MCs, que foram clicados inúmeras vezes por João Wainer. Mas, não só o grupo teve sua imagem imortalizada pelas lentes do fotógrafo. Dexter, Jair Oliveira, Elza Soares, Max de Castro, Chico Buarque e o já citado Presidente Lula, também já foram clicados por ele.

O tema se estende, e, João mostra que suas lentes conectam muito mais que imagens, conectam almas. “Chegar na periferia e ver que aquela gente é feliz apesar dos problemas, é gratificante. É muito louco aquilo, a galera no churrascão na laje, som do carro ligado no talo, saca? É mó barato.”

O fotógrafo que já percorreu periferias de vários lugares do mundo, como a de Kingston, diz que fotografar a periferia tem um algo especial, que não daria para explicar em algumas palavras. No entanto, o homem dos retratos sensacionais, do incrível “Pixo” (assista ao trailer), e dos cliques de Carandiru e de muitas coisas que o Brasil finge desconhecer, cita em uma frase de Tia Dag, uma realidade vista por suas lentes, que são, na verdade, seu olhar: “o moleque da periferia é bem mais forte do que o moleque da classe média, porque se ele conseguiu sobreviver até os 15 ou 18 anos passando por tanto perrengue, ele pode passar por muito mais coisas que sobreviverá.” E completa: “ninguém segura a periferia. Eles tem um estilo próprio, eles crescem a cada dia. Essa galera vai longe.”

Nesse momento, o som “Povo da Periferia”, de Ndee Naldinho, passa pela minha mente. João continua, explica e acrescenta detalhes. Mostra que suas lentes são capazes de retratar muito mais do que imagens. Mostra que a luta da periferia vai de Lula a Mano Brown, de Che Guevara a Martin Luther King, mas sem perder a riqueza de cultura e, o principal, sem perder a alegria. E finaliza: “há 15, 16 anos eu escutei Racionais pela primeira vez e fiquei louco! A maneira com que o Brown falava como ele descrevia as coisas, aquilo chamou muito a minha atenção. Como eles [Racionais] mesmo dizem, periferia é periferia. E o guerreiro de fé, o pai de família, o trabalhador – esse nunca gela, não agrada o injusto e não amarela."

Essa matéria, foi publicada em primeira mão no site do Central Hip Hop... Lá tem fotos e td mais... Confiram!

(Por Yara Morais)

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