
As tristezas do campo de concentração onde mais morreram judeus na época Hitler contadas por um sobrevivente
Por Yara Morais
“Preconceito existe em todo e qualquer lugar do mundo, mas aquele preconceito era diferente. Era uma guerra sanguinária.”
Alemanha, abril de 2010. Mês em que a Europa fora invadida pela nuvem de fumaça que se alastrou por todo o continente. No Brasil, as pessoas estavam ansiosas para a convocação da seleção de Dunga para a Copa da África do Sul. Enquanto meu país priorizava o futebol, resolvi me aprofundar na Alemanha do início da década de 40. Década marcada por Adolph Hitler. É difícil caminhar pelas ruas e não se lembrar dos dias que retrataram aquele período. Berlim está diferente, é visível a melhoria da cidade depois da derrubada do muro que separava as duas Alemanhas. Mas meu destino era outro. Bremen, uma pacata cidadezinha no noroeste do país. Chegando à cidade, sento-me na calçada com alguns jovens que cantam ao som de Beatles. Puxo conversa. Futebol, samba, é uma grande novidade para eles. “Vocês vivem na praia todos os dias,” comenta uma moça de aparente 25 anos de idade. E completa: “meu avô sempre quis ir ao Brasil para lá, mas não conseguiu. A época dele não permitia a liberdade que temos hoje.” Explico a moça, a minha função no Brasil. Uma longa conversa e ela me convida para conhecer o sítio onde mora com a família. Ao chegarmos, observo um senhor na varanda. Pele branca, olhos claros, típico europeu. Na sala da casa as janelas dão de frente para a plantação de rosas vermelhas. Catharine me apresenta ao avô que, quando sabe sobre minha nacionalidade solta: “o Brasil parece coisa de cinema, aliás, a guerra lá é pela bola.”
Com um sorriso que carrega a marca de 90 anos de idade, Andreas Marcinkowski, possui no rosto as marcas de quem viveu momentos de horror sob o poder de Adolph Hitler. Iniciamos uma conversa descontraída, até que pergunto se ele passou por algum campo de concentração naquela época. Sem hesitar ele responde: “meus pais eram judeus. Morreram em Auschwitz. É impossível tirar aquilo da minha história.”
Por diversos momentos eu sentia que aquele homem tinha muito para contar. E eu estava certa. Polonês por naturalidade, ele vivia com os pais e irmãos quando todos foram capturados por soldados de Heinrich Himmler. “Éramos judeus, aquilo era inadmissível para eles. Os soldados diziam que fazíamos mal para a espécie humana.”
Andreas se emociona ao falar da chegada no campo de concentração: “Separavam a gente. Velhos e crianças de um lado, jovens do outro. Os jovens eram recrutados para o trabalho. Aquele lugar era horrível. Tudo era cinza.”
Entre um comentário e outro ele ri, conversa com os netos, faz questão de mostrar o sitio em que mora. Faz bem o tipo avô, mas faz muito mais o estilo sobrevivente. Aponta para o norte. “Eles iam para a Polônia em bando”, relembra, referindo-se aos soldados. “Davam-nos roupas com números, e aparavam os cabelos das pessoas. Depois daquele dia nunca mais vi meus pais vivos. Somente gritos pela noite, e eu pensava que um daqueles gemidos podia ser de um deles.” As lágrimas correm pelos olhos. Seria inevitável, afinal, tudo aquilo fez parte de sua vida. Mal me deixa perguntar e já dispara: “eu não sei ao certo quantas pessoas morreram lá. Mais milhões de judeus perderam suas vidas por causa de um preconceito. Lembro-me de muitas vezes que eu trabalhei na casa de comandantes. Carregava entulho, terra, e se derramasse um punhado que fosse, apanhava até desmaiar. Às vezes eu não dormia. Tinha medo de acordar no banho da morte [referindo-se aos banhos de ácido].”
Neste momento ele pára a conversa e vagarosamente continua a caminhar. Volta-se para mim e, surpreendentemente diz: “tive que colocar o corpo da minha mãe para ser queimado.” Ao se deparar com o meu semblante de espanto, completa: “eu ajudava na fornaria. Queimava muitos corpos, queimava minha gente sem poder derramar uma lágrima.” Por um momento as imagens tomam conta da minha memória. Pergunto sobre sua mãe. “Ela era linda, por isso eu a reconheci. Quando olhei para ela deitada, morta, com hematomas por todo o corpo, tive vontade de abraçá-la e morrer junto com ela. Mas não pude. Tive que me fazer de indiferente. Colocar o corpo lá como se fosse de um desconhecido.”
Fiquei sem reação. Ele limpa o rosto e volta a caminhar. Aquela era, com certeza, uma das mais impressionantes histórias de vida que havia escutado. Marcinkowski lembra perfeitamente do dia em que fugiu do campo de concentração. “Eu e outro rapaz aproveitamos um deslize dos soldados e escapamos. Aguardávamos aquele deslize há meses. Eu nem acreditei quando sai de lá. Durante muito tempo ficamos escondidos no meio da mata, como bichos.”
O amigo, Samuel, que fugiu com Andreas, morreu em 1993, com problemas cardiológicos, conta. Depois da fuga, Andreas não viu mais os irmãos. Ele acredita que por serem crianças levaram o mesmo fim dos pais. Em maio de 1946 ele se casou com uma jovem alemã, com quem teve dois filhos. Hoje, ele guarda tristezas e alguns momentos tranquilos daquela época, como as partidas descontraídas de futebol, mas, guarda principalmente o mais triste deles: o instante em que teve que queimar o corpo da mãe.
Já era tarde, eu precisava voltar para o hotel antes de partir para Berlim. Despeço-me dele e dos netos. Agradeço pela conversa. Ele, então, sorri e finaliza: “aquela Alemanha do Hitler morreu, por isso vim para cá. Mas os judeus, sejam eles alemães, poloneses ou belgas, por mais que tenham sofrido sobreviveram. Eu não sei quantos anos mais vou viver. Mas só por ser um sobrevivente já valeu a pena ter passado pela vida.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário